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Crise e silêncio criam clima de incerteza entre estudantes e professores da UFMG

Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o silêncio da Reitoria sobre a real situação financeira da instituição preocupa a comunidade acadêmica. Nas últimas três semanas, a UFMG recebeu dois aportes de recursos do Ministério da Educação (MEC). Ao longo dessas três semanas, o Bhaz solicitou à UFMG entrevista com alguém que pudesse explicar como ficou a real situação financeira da Universidade após as duas liberações de recursos.

Nas duas ocasiões, a informação recebida, via Centro de Comunicação (Cedecom), era de que a Reitoria não falaria mais sobre o assunto. Na sexta-feira passada, após a segunda tentativa, a UFMG divulgou nota informando apenas que com os recursos da última liberação, no valor total de R$ 28,7 milhões, a universidade pagaria os fornecedores por serviços que já foram prestados. Porém, continuam no ar as dúvidas sobre a situação das obras em andamento, dos projetos de pesquisa, das bolsas.

Essa semana, levantamento do jornal “Folha de S. Paulo” coloca a UFMG entre as melhores universidades públicas e privadas brasileiras. Porém, entre estudantes e professores, o clima não é dos  melhores. É de incerteza. “O que estamos vivendo aqui é uma situação de preocupação, medo. Medo de perder a bolsa, de ter seu curso fechado, de não ter mais condição de estudar por não ter restaurante universitário, moradia, auxílios.” O relato, em tom de desabafo, é do estudante de história da UFMG, João Pedro de Oliveira Maia, de 21 anos. Coordenador do Movimento Correnteza e membro do diretório acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). O discente faz parte da lista de alunos, funcionários e professores da UFMG que têm sentido na pele os efeitos do corte orçamentário que atingiu em cheio as universidades públicas brasileiras.

Crise dura quatro anos

A crise na UFMG já dura aproximadamente quatro anos. No final de 2014, quando a instituição sofreu um corte de R$ 30 milhões nos recursos previstos para os últimos meses daquele ano, o resultado foi a suspensão do pagamento de contas de água e luz e a demissão de funcionários terceirizados de segurança, portaria e limpeza. A exemplo das demais universidades públicas, a UFMG foi surpreendida no início do ano com um novo contingenciamento, imposto pelo Decreto 8.389: em vez de receber a cada mês a décima segunda parte da verba inicialmente prevista para o ano de 2015, cada órgão terá direito mensalmente, até a sanção da Lei de Diretrizes Orçamentária, a 1/18 do total anual, uma redução de 33% dos valores que seriam repassados.

Ao completar 90 anos, a UFMG tem dez obras paradas e faltam recursos para pagar contas básicas de água, luz e pagamento de fornecedores. Questionado se houve alguma época em que a instituição foi adequadamente financiada, o estudante afirma que “do ponto de vista da educação, da pesquisa, da tecnologia e da extensão, a história mostra que a instituição nunca foi a prioridade dos governos.” E complementa: “A crise na UFMG é parte da crise que o País passa. Uma crise que tem um programa bem claro: corta do povo, da educação, dos estudantes, da previdência social e faz bondades para os grandes empresários, para os donos dos bancos e do agronegócio”, argumenta.

Já o professor do departamento de Farmacologia, Helton J. Reis, 45 anos, acredita que a instituição nunca foi adequadamente financiada pelos governos. “Desde a formação do que conhecemos como País/Nação, nossos estratos dominantes nunca demonstraram apreço na produção do conhecimento. As famílias com posses mandavam seus filhos à Europa para estudar. Não havia interesse em fundar universidades aqui. Somente com a chegada da família real portuguesa, fugida da guerra, é que se organizou a primeira ‘universidade’ no Brasil”, rememora.

Perdas chegariam a R$ 775 milhões

De acordo com o professor, o atual reitorado fez um estudo interessante sobre os impactos da Emenda Constitucional 95, que congelou os gastos do governo federal por 20 anos. Na simulação, somente a UFMG teria perdido R$ 775 milhões de 2006 a 2015. “País nenhum no mundo toma atitude dessa em relação ao conhecimento”, critica.

Na opinião do docente a redução de investimentos não é apenas um retrocesso, mas também um erro de estratégia que afeta diretamente o trabalho de funcionários, professores e pesquisadores da UFMG. “Nos últimos tempos, o que percebemos é um agravamento das condições de trabalho por conta de vários fatores, tais como a eminente perda de direitos como a aposentadoria”, afirma. “São inúmeras situações que nos impõem um ambiente tenso e insalubre de trabalho”, lamenta.

Reis conta que os afastamentos por razões de doença são cada vez mais constantes entre os colegas de trabalho devido à carga de cobrança e à falta de estrutura que os professores e funcionários da UFMG enfrentam diariamente. “Devido à falta de autonomia financeira, a reitoria fica correndo para todos os lados em busca de rubricas para manter a estrutura de pé. É uma tarefa gigantesca a de nosso reitor. Resumindo, um ambiente péssimo temos presenciado ultimamente.”

Outro que também lamenta a atual situação pela qual passa a UFMG é o professor titular da Faculdade de Educação, Luciano Mendes de Faria Filho, 52 anos. Membro do Conselho Deliberativo do CNPq e da Câmara de Ciências Humanas, Sociais e Educação da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig), além de fundador do movimento “Pensar a Educação em Pauta”, o docente afirma que a instituição, de um modo geral, sempre foi subfinanciada. “Os recursos sempre foram aquém daquilo que era demandado e necessário para a constituição de um ambiente acadêmico-científico saudável e produtivo. Basta, para isso, considerar que, por exemplo, a Faculdade de Educação funcionou e, ainda hoje, em parte, funciona, num prédio ‘improvisado’, construído nos anos de 1960”.

Período FCH foi ruim para as universidades públicas

Apesar disso, ele afirma que a UFMG passou por uma profunda oscilação em termos de financiamento. “O período do FHC foi uma lástima para as universidades públicas, a UFMG aí incluída. Foi um tempo em que não era possível pagar as contas básicas da universidade: água, luz, telefone. Investir, então, não era nem pensado”, rememora, destacando o importante papel da Universidade no cenário nacional. “A UFMG atua como formadora de pessoal altamente qualificado. É a maior e mais importante instituição de ensino superior mineira. Nos quesitos produção científica e tecnológica, é uma das mais importantes universidades do país e da América Latina. Seus pesquisadores e as pesquisas aqui realizadas são, em muitas áreas, referências no mundo”, destaca.

Segundo ele, as razões da crise que afeta a UFMG passa pelo atual governo, que, de acordo com ele, chegou ao poder por meio de um golpe parlamentar, com franco apoio do judiciário, da mídia, do grande empresariado e de parte da população brasileira. “Não foi posto lá para a implementação de um projeto de desenvolvimento nacional. É só num projeto assim que uma universidade como a UFMG, em que a pesquisa tem grande centralidade, faz sentido. Se não se tem projeto de desenvolvimento, não faz sentido fazer pesquisa”, pondera.

As melhores soluções para financiar a UFMG, de acordo com o professor da FAE, passam pelo investimento público. Para isso, segundo ele, é preciso retomar e levar a sério o que está no Plano Nacional de Educação: 10% do PIB para Educação. “Sem isso, não é possível darmos conta do nosso passivo educacional e da expansão necessária para acolher aqueles meninos e meninas que, hoje, querem entrar na universidade”, defende. “Isso que não quer dizer que eu defenda que o financiamento deva ser exclusivamente público. Penso e defendo dentro da universidade que a relação com a iniciativa privada, com as empresas, sobretudo aquela dos ramos em que a universidade constrói excelência,  é fundamental”, argumenta.

 

Paralelamente à crise brasileira enfrentada pelo País, os bolsistas do CNP que estudam na UFMG têm outra razão para se preocupar. Este ano, houve atrasos nos pagamentos das bolsas. O problema afeta bolsistas de Produtividade em Pesquisa (PQ) e Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora (DT). “A situação, hoje, é de grande apreensão. Para ensinar e fazer pesquisa bem é preciso ter tranquilidade. Essa é uma das primeiras em que dimensões que a crise nos afeta como membros da comunidade universitária: nos tira a tranquilidade e consome nosso tempo em atividades outras que não o ensino e a pesquisa”, afirma o professor, alertando para os perigos de mais medidas de contingenciamento de recursos. “O mais grave, e que já está ocorrendo, é o impacto disso tudo na estrutura da pesquisa, aquela que levamos décadas para construir e que corre o risco de ser sucateada em poucos meses ou anos.”

Fonte: BHAZ